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Vikings Valhalla: nem todo spin-off faz jus ao original





A indústria audiovisual, há tempos, vem demonstrando seu apreço por continuidade e segurança. Apostar em um produto cujas raízes foram plantadas, de forma bem sucedida, em um sucesso anterior, tem sido fato recorrente. O universo expandido dos super-heróis ilustra muito bem essa premissa. As chamadas sequels estão por toda parte na grande tela. Na TV e no streaming os chamados spin-offs tem ganhado cada vez mais espaço, mas afinal de contas, o que é um spin-off?


Em se tratando da indústria do entretenimento, um spin-off é o trabalho narrativo derivado de um produto pré-existente e que tem como foco a continuação de diferentes aspectos e detalhes do universo ficcional daquele trabalho original. Desta forma, tanto personagens quanto tópicos específicos ou eventos podem servir de motores para mover novas histórias adiante. Não são poucos os exemplos de séries bem-sucedidas que nasceram como spin-offs de outras produções: como não nomear trabalhos como Better call Saul (um aclamado derivado da já tão elogiada Breaking Bad) ou ainda Star Trek: new Generation (Star Trek), Angel (Buffy, a Caça Vampiros), Law and order: special victims unit (Law and Order), Torchwood (Doctor Who)? Se você é cria dos anos 90 como eu, irá se lembrar de Xena: a princesa guerreira e como esse spin-off eclipsou completamente ou seu original, Hércules: a lendária jornada.


No dia 25 de fevereiro estreou Vikings: Valhalla na plataforma Netflix. Lançada apenas um ano após o final de Vikings – série criada por Michael Hirst, inicialmente para o History Channel, este spin-off criou uma série de expectativas nos fãs da série original, principalmente porque prometia contar mais um capítulo importante das sagas nórdicas. Desenvolvida a partir de relatos sobre a vida de personagens reais como Harald Sigursson, Leif Eriksson e Freydís Eriksdötter, a série poderia ter apresentado um universo tão fascinante quanto o da sua antecessora. “Poderia”, “Prometia”, assim mesmo no futuro do pretérito do indicativo, porque infelizmente, em se tratando de um spin-off, a série não alcança o padrão pré-estabelecido pela produção do History Channel. O que é uma pena, uma vez que tendo o poderio da Netflix em sua retaguarda, era de se esperar outro nível desse trabalho.


Do ponto de vista do roteiro, que é o que me cabe aqui, é possível apontar uma série de escolhas infelizes que fazem de Vikings: Valhalla uma continuidade questionável. A narrativa começa durante o massacre do dia de São Brice, cem anos após os feitos de Ragnar Lothbrok, Lagertha, Björn, Alfredo, o Grande e Ivar, o desossado. Durante a passagem do tempo, o assentamento viking criado pelos personagens da série original foi expandido e a população escandinava progredia no seio do território inglês, York. No entanto, o rei Athelred – conhecido como O Despreparado – ordena o massacre do assentamento, apresentando assim o incidente incitante da trama. A partir deste extermínio, o rei Cnut decide reunir um grande exército viking para vingar a morte de seus conterrâneos. Em meio a estes guerreiros está Harald Sigursson, príncipe da Noruega, que perdeu parte da família no ataque dos ingleses. Uma série de coincidências forçadas (que não mencionarei aqui para não dar spoiler), colocam os irmãos groenlandeses Leif Eriksson e Freydís Erikdötter na cidade de Kattegat (cenário onde boa parte da série original se desenrola) no momento em que o rei Cnut apoiado por Harold está convocando mais guerreiros e guerreiras para a batalha com os ingleses. A vingança viking, que parecia ser a premissa da série, é resolvida no segundo episódio, quando após um ano os nórdicos chegam à Inglaterra e descobrem que o rei morreu de causas naturais, esvaziando assim toda a proposta inicial.


A partir do terceiro episódio fica difícil entender qual é o conflito central da série, já que diversas intrigas são apresentadas, tais como a assimilação cristã que faz com que cada vez mais guerreiros abandonem os deuses pagãos em detrimento do catolicismo e a dificuldade de reunir os povos nórdicos sob um objetivo comum, já que a série traz diversas pequenas intrigas e traições paralelas que tiram o foco de uma narrativa mais ampla. O próprio nome do spin-off parece deslocado, visto que muito pouco se fala sobre o salão dos deuses onde os guerreiros mortos em batalha vão celebrar a vida pós-morte. Conforme alguns personagens vão se convertendo na trama, a ideia de valhala fica mais distante. Apenas uma personagem central parece lutar pela permanência das velhas crenças e ainda assim, nos primeiros episódios ela é confrontada com seu futuro e tem de conviver com a noção de que fracassará na sua luta. Os relatos históricos contados nas sagas são deixados de lado e o que vemos são uma sucessão de arcos dramáticos que parecem começar e acabar ao acaso.


Uma pessoa aficionada por História poderia argumentar que a série não erra ao mostrar o início do fim e eu poderia concordar com esse argumento caso os criadores não tivessem vendido a produção como uma narrativa sobre “os maiores guerreiros vikings de todos os tempos”. O recorte dramático escolhido pelos roteiristas não consegue fugir do fantasma futuro de 1066 – ano considerado como o fim da era viking. Os personagens aparecem ainda imaturos, mas profundamente assolados pelo futuro obscuro que alguns sabem que virá. Então de que maneira a série, que já foi renovada para a segunda temporada, pretende mostrar as façanhas lendárias de Leif, Harold e Freydís? Quais são as motivações desses personagens? Na série original acompanhamos a construção dos propósitos de cada um dos personagens centrais e ainda que em determinadas passagens os acontecimentos históricos suplantassem os heróis, sabíamos de antemão quem eles eram em meio ao turbilhão de sangue, couro e escudos.


As motivações não estão claras no spin-off e uma miríade de personagens novos vão sendo introduzidos na trama de forma forçada. É difícil ser cativado pela jornada de heróis que são jogados de um lado para o outro, constantemente na estrada ou no mar, sem que fique claro o propósito para tal. Em determinado momento, vários personagens parecem disputar o trono da Inglaterra, o que poderia levar a um desfecho interessante, mas enquanto isso acontece, os personagens principais estão cada um em sua jornada individual bem longe do solo inglês, vindo a se reunirem apenas em batalha.


Diferente da série original, Vikings Valhalla não apresentou personagens cativantes o suficiente para que haja torcida por suas jornadas ou para que haja lamento diante de suas mortes. Ragnar Lothbrok e Lagertha deixaram um grande número de órfãos, mas quem irá chorar a morte de Harald, Freydís ou Leif? Para além da temática, o spin-off faz constante referência ao original, ao trazer os mesmos cenários, como Kattegat, Wessex e Mércia. Os heróis do passado são constantemente reavivados antes de batalhas e até mesmo na presença de seus descendentes, como a rainha inglesa Emma que descende de Rollo e Harald que é bisneto de Harold Finehair. Mas as alusões ao passado em vez de cativar, evidenciam aquilo que Vikings Valhalla não conseguiu atingir.


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